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Once a time

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

(Re)começo. Entrar naquela mesma sala e ter a certeza de que nada mais será como antes. É difícil recordar o passado, mas torna-se inevitável fazê-lo estando ali. Memórias. Vozes que ecoam. Tormentos. Alegrias e desilusões. Folhas amareladas que teimam em ser viradas por um vento que entra pela porta que ficou aberta. Folhas amareladas que não se consegue arrancar. Tudo ainda é muito recente. Aquela tarde, aquele vinho, aquela espera... eu te amo, eu te amo, eu te amo! Se disser isso mais uma vez, não me responsabilizo por meus atos...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Do outro lado da porta, mais um dia de outono. É abril. De volta para a rotina dos estudos, livros, cafés, cigarros. Tudo de novo. Tudo de novo outra vez... é a circularidade da vida. Um passo de cada vez. Um dia de cada vez. Momentos. Não é um recomeço. É a vida e suas voltas. Voltas que dá em espiral e situações que parecem se repetir. Sentimentos que teimam em voltar. Memórias. Embarca. Encontra um lugar vago. Senta-se. Você foi! O maior dos meus casos, de todos os abraços o que eu nunca esqueci. Você foi! Dos amores que eu tive, o mais complicado. Um homem robusto, com cheiro forte de cigarro ocupa o lugar ao seu lado. As pessoas não deveriam fumar. Talvez não devessem fumar tanto. Um som irritante: alô, oi amiiiiiiga. Patricinhas. Buzinas. Conversas. Para. Arranca. Das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter. Só assim, sinto você bem perto de mim outra vez. Para, demora desta vez. Um deficiente físico embarca. Arranca. Enfim, é na próxima.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Corre os olhos pela estante. Gira a cabeça. Aproxima-se. Passa o dedo lentamente pelos títulos. Nenhum parece agradar-lhe. Retira qualquer um, ao acaso. Abre. Folheia. Lê: "Quando penso sobre minha vida e olho para o passado, uma noite assustadora surge como um intenso ponto de referência. Mesmo agora, depois de tantos anos, não consigo pensar naquele encontro sem sentir um calafrio. Hoje, classifico mentalmente todos os incidentes de minha vida: os que ocorreram antes e os que ocorreram depois da noite em que vi um fantasma. Sim, vim um fantasma. Não seja incrédulo..." Fecha o livro. Coloca-o de volta no lugar. Não precisa disso. Não neste momento. Sai. Cuidadosamente gira a maçaneta. Fecha a porta.

domingo, 18 de julho de 2010

O caminho de volta é sempre longo. Mais longas são as horas de explicação: onde estava? isso são horas? isso é jeito de chegar? Deixa que a porta se feche atrás de si. A voz fica ao longe. Abafada. Silenciada. Deixa então seu corpo despencar na cama. Sujo. Não tem hora para acordar. Não tem compromissos. Só uma coisa lhe aflige o pensamento. Só uma coisa perturba-lhe. Inquieta-lhe. Fecha os olhos. Dorme.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Uma vez sentiu uma vontade indescritível de tirar a roupa e correr pela rua. Tinha bebido demais. Vontades assim só surgem nestas ocasiões. Pessoas sensatas não tem essas vontades. Pessoas sensatas não bebem. Pessoas sensatas não ficam bêbadas. Pessoas sensatas não têm ressaca. Pessoas sensatas são um porre. Pensava nisso enquanto voltava cambaleante pelas sargetas da cidade. Para. Um rato cruza seu caminho. Equilibra-se. Olha a sua volta. Não sabe onde está. Pessoas que não bebem são mesmo um saco! Dá mais alguns passos. Apóia-se em um poste. Cachorros latem para o gato que está em cima do telhado. Cachorros. Abre os olhos. O sol está quente hoje. Alguém passa e chuta sua garrafa vazia. Ela sai rolando. Buzinas. Hora de voltar para casa.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Volta os olhos para trás e a imagem turva de um sentimento lhe vem à tona. Retoma o ar. Pega o sapato, coloca-o junto ao seu par. Estica os lençóis. Abre a janela. Sacode as cinzas. O cachorro deveria estar preso. Ele não para de latir. Malditos cachorros, latem toda a noite e estão carregados de pulgas e carrapatos. Nem todos os os cachorros são como o Bugo. A porta bate. O coração dispara. Aquela tarde não deveria ter acabado, deveria durar para sempre. Morreria em teus lábios. Morreria em tua cama. Morro a cada instante por não poder... Para de latir, cão imundo! É com estes gritos que desperta todas as manhãs. Todas as tardes. Sempre.
A pessoa sobre quem escrevo não é célebre; talvez nunca chegue a sê-lo. É possível que, ao atingir o fim da vida, não deixe, de sua passagem pela terra, vestígio maior que aquele que a pedra, atirada ao rio, deixa na superfície das águas. Neste caso, se o meu blog for lido, sê-lo-á exclusivamente pelo interesse intrínseco que possa ter. Mas é possível que o gênero de vida que essa pessoa escolheu para si própria e a singular força e doçura do seu caráter tenham uma influência sempre crescente sobre seus semelhantes, de modo que, mesmo muito tempo depois de sua morte, talvez se compreenda que nesta época viveu uma criatura extraordinária. Ficará, então, claro sobre quem escrevi neste blog, e aqueles que desejarem conhecer alguma coisa dos primeiros anos da existência dessa pessoa talvez aqui encontrem algo que lhes satisfaça.


paráfrase S.M.