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Once a time

terça-feira, 22 de junho de 2010

Volta os olhos para trás e a imagem turva de um sentimento lhe vem à tona. Retoma o ar. Pega o sapato, coloca-o junto ao seu par. Estica os lençóis. Abre a janela. Sacode as cinzas. O cachorro deveria estar preso. Ele não para de latir. Malditos cachorros, latem toda a noite e estão carregados de pulgas e carrapatos. Nem todos os os cachorros são como o Bugo. A porta bate. O coração dispara. Aquela tarde não deveria ter acabado, deveria durar para sempre. Morreria em teus lábios. Morreria em tua cama. Morro a cada instante por não poder... Para de latir, cão imundo! É com estes gritos que desperta todas as manhãs. Todas as tardes. Sempre.
A pessoa sobre quem escrevo não é célebre; talvez nunca chegue a sê-lo. É possível que, ao atingir o fim da vida, não deixe, de sua passagem pela terra, vestígio maior que aquele que a pedra, atirada ao rio, deixa na superfície das águas. Neste caso, se o meu blog for lido, sê-lo-á exclusivamente pelo interesse intrínseco que possa ter. Mas é possível que o gênero de vida que essa pessoa escolheu para si própria e a singular força e doçura do seu caráter tenham uma influência sempre crescente sobre seus semelhantes, de modo que, mesmo muito tempo depois de sua morte, talvez se compreenda que nesta época viveu uma criatura extraordinária. Ficará, então, claro sobre quem escrevi neste blog, e aqueles que desejarem conhecer alguma coisa dos primeiros anos da existência dessa pessoa talvez aqui encontrem algo que lhes satisfaça.


paráfrase S.M.